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Guerras, feminismo e boicotes; como os Jogos contam a história
Criado em 1894 pelo francês Pierre de Coubertin, o Comitê Olímpico
Internacional (COI, ou IOC, em inglês) passou a organizar todas as
edições dos
Jogos Olímpicos
a partir de então. Desde 1896, durante a Olimpíada de Atenas, atletas
do mundo inteiro se reúnem em competições esportivas a cada quatro anos.
Mesmo indiretamente, desde o início do século XIX até o início do XXI, as
edições das Olimpíadas refletiram as mudanças ocorridas no mundo
inteiro, em relação à política, cultura e economia, sendo um reflexo
histórico dos principais acontecimento de diferentes períodos.
Assim, passando por revoluções políticas, movimentos pela igualdade
feminina, guerras mundiais e disputas de poder entre potências mundiais,
a importância adquirida pelas Olimpíadas transcende as competições
esportivas e a disputa pelas medalhas de ouro, prata e bronze. A seguir,
saiba mais sobre a relação entre mudanças sociais e culturais e sua
relação com as diversas edições dos Jogos Olímpicos.
Arquitetura, escultura e pintura já foram esportes olímpicos?
Idealizador das edições modernas das Olimpíadas, Pierre de
Coubertin incluiu modalidades culturais na programação oficial do
evento. Assim, entre os Jogos de Estocolmo 1912 e Londres 1948, foram
realizadas competições olímpicas de arquitetura, escultura, pintura,
literatura e música. Depois, essas competições foram substituídas por
programações culturais em locais separados das atividades olímpicas,
como peças de teatro e concertos musicais.
O período em que a cultura era esporte olímpico, na primeira
metade do século 20, coincidiu com os anos de imperialismo europeu,
quando a cultura europeia era considerada superior. "As potências da
Europa tratavam o resto do mundo como áreas colonizadas, e a ideia de
uma cultura europeia dava uma mostra de superioridade. Isso se perdeu
após a Segunda Guerra Mundial, quando o continente estava destroçado, e
esse cenário levou a uma consolidação da indústria cultural", comenta o
professor de história Lucas Kodama, do curso pré-vestibular Anglo, de
São Paulo.
Houve Olimpíada durante as duas Guerras Mundiais?
Apesar de Londres 2012 ser oficialmente a 30ª edição das
Olimpíadas, na prática, essa conta é um pouco menor: em função dos
conflitos ocorridos durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, as
Olimpíadas não foram realizadas durante os dois períodos. Dessa forma,
descontados os anos de 1916, 1940 e 1944 - que entram apenas na contagem
oficial do COI, sem a realização dos Jogos -, houve de fato 26 edições
do evento desde a primeira Olimpíada da era moderna, em 1896, até 2008,
em Pequim.
Para o professor de marketing esportivo Nicolas Caballero, do
Centro Universitário Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), a
contagem dos Jogos que não ocorreram é uma forma de o COI mostrar que
as Olimpíadas não foram interrompidas, simbolicamente, e que o movimento
olímpico não teria se submetido a pressões políticas. "Mas, na verdade,
quando estourou a Segunda Guerra Mundial, o Comitê cancelou as
Olimpíadas", ressalta.
Quando as mulheres puderam competir nas Olimpíadas?
Durante os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga, as mulheres não
podiam assistir ao evento e nem participar dele, segundo o livro 'De
banquetes y batallas', do filósofo Javier Ortuño, fez com que Pherenice
fosse condenada à morte por se travestir de homem para assistir à luta
do filho boxeador Peisidouros. Durante as edições modernas dos Jogos,
contudo, aos poucos, as mulheres foram conquistando o direito de
participar das competições: em 1900, nos Jogos de Paris, foram aceitas
no golfe e no
tênis
; em 1912, em Estocolmo, na
natação
; em 1928, em Amsterdã, em algumas competições de
atletismo
. Em 1964, durante a Olimpíada de Tóquio, por exemplo, na
mesma época em que movimentos pela igualdade sexual e de salários para
as mulheres ganhavam força, elas participaram, pela primeira vez, das
competições olímpicas de vôlei.
"Os movimentos feministas por direito ao voto surgidos no
final do século 19 e o aumento da conquista do mercado de trabalho pelas
mulheres durante as duas grandes guerras coincidem com o aumento da
participação feminina nas Olimpíadas. E também na década de 1960, que
tornou-se um marco pela busca da mulher por maior liberdade sexual e
igualdade de salários, com o surgimento da pílula, por exemplo", destaca
o professor de história Lucas Kodama, do curso pré-vestibular Anglo, de
São Paulo.
Todos os continentes já sediaram as Olimpíadas?
Das 11 cidades-sede das Olimpíadas realizadas antes da
Segunda Grande Guerra, apenas duas não foram europeias: as americanas
Saint Louis e Los Angeles, em 1904 e 1932, respectivamente. E, se após o
conflito, a maior parte dos atletas deixou de pertencer a delegações de
países ocidentais, o eurocentrismo em relação às cidades-sede das
Olimpíadas não mudou: entre os Jogos de Londres, em 1948, e de Pequim,
em 2008, apenas três cidades asiáticas, três americanas e uma
latinoamericana sediaram os Jogos, contra oito europeias. Enquanto a
primeira Olimpíada realizada na Ásia foi em 1964, em Tóquio, e na
América Latina em 1968, na Cidade do México, o continente africano nunca
sediou uma edição do evento.
"Esse eurocentrismo é uma questão histórica e econômica,
que sempre interferiu na organização dos Jogos: os principais
patrocinadores das Olimpíadas sempre se concentraram na Europa, e o
interesse deles de realizar os Jogos no continente sempre foi
significativo. E como a maior representação de votos dos membros do COI é
do continente europeu, ele sempre acabou dominando as sedes das
Olimpíadas, principalmente durante as primeiras edições, pela logística
da Europa estar mais avançada", afirma o professor de marketing
esportivo Nicolas Caballero, do Centro Universitário Instituto de
Educação Superior de Brasília (Iesb).
Como a evolução dos transportes influenciou na organização dos Jogos?
Ao longo das primeiras Olimpíadas, durante o início do
século 20, o desenvolvimento industrial gerou veículos mais velozes e
populares, que passaram a estar no alcance de um número maior de
pessoas. Essa evolução na indústria de transportes permitiu que os
atletas percorressem mais rapidamente as distâncias entre os estádios e
as vilas olímpicas, evitando a baixa de atletas inscritos nos eventos,
além de encurtar as distâncias intercontinentais.
"A evolução da indústria automobilística e da aviação
tornaram a situação diferente, pois, na medida em que há uma expansão
das tecnologias de transportes, as distâncias passam a ser percorridas
mais rapidamente, o que faz com que um maior número de atletas participe
dos Jogos¿, ressalta o professor de história Lucas Kodama, do curso
pré-vestibular Anglo, de São Paulo.
Os Jogos já foram realizados em dois continentes diferentes?
Sim. Os Jogos de 1956 ficaram marcados por duas
curiosidades: pela primeira vez, a Olimpíada foi realizada em diferentes
continentes. Enquanto quase todas competições ocorreram em Melbourne,
na Austrália, as de
hipismo
foram realizadas separadamente, no mês de junho, em
Estocolmo, na Suécia, onde as leis de quarentena não eram tão severas.
Outro fato marcante da edição foi que, pela primeira vez, a grande
maioria dos 3.178 competidores chegou até a cidade-sede de avião.
O procedimento, adotado em todas as Olimpíadas
posteriores, foi fundamental para a organização do evento e para que os
Jogos fossem realizados em diferentes partes do mundo. "A tecnologia
influenciou muito o rodízio de continentes entre as cidades-sede, pois
ela facilitou a questão logística dos Jogos, um dos quesitos que são
levados em consideração na escolha do lugar que sediará o evento",
ressalta o professor de marketing esportivo Nicolas Caballero, do Centro
Universitário Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb).
Quando ocorreram as primeiras transmissões ao vivo das Olimpíadas pela televisão?
A partir de 1936, os Jogos Olímpicos começaram a
ser transmitidos pela televisão, em circuito fechado, mas as primeiras
transmissões ao vivo só ocorreriam duas décadas depois, na Itália. A
experiência pioneira foi em 1956, nos Jogos de Inverno da cidade
italiana de Cortina d'Ampezzo, em pequena escala. Já em 1960, na
Olimpíada de Roma, os Jogos foram transmitidos ao vivo para os europeus
por emissoras do continente. Oito anos depois, durante a Olimpíada de
Inverno de Grenoble, na França, ocorreu a primeira transmissão a cores
dos Jogos.
"As Olimpíadas já nasceram como um espetáculo,
desde a Grécia Antiga, e a televisão também tem um ponto de contato
muito forte com o espetáculo. Pela variedade de Jogos e pelas
possibilidades plásticas, os Jogos Olímpicos sempre foram atraentes para
a televisão, em termos de audiência e faturamento comercial, mesmo
pelas televisões estatais europeias, como a
BBC
, que foram as primeiras a transmitir os Jogos",
explica o professor de telejornalismo da Universidade de Brasília
(UnB), Paulo José Cunha.
De que formas as Olimpíadas foram exploradas politicamente?
Ao longo do século 20, além de reunirem
atletas do mundo inteiro, os Jogos Olímpicos também foram palco de
diversos protestos e movimentos de cunho político, especialmente durante
a Guerra Fria, na segunda metade do século 20. Entre eles estão a
recusa de alguns países em mandar atletas para a Olimpíada de Melbourne,
em 1956, em função da crise no Canal de Suez, no Egito, e a repressão
soviética na Hungria, além de protestos de atletas americanos contra a
questão racial no país, durante os Jogos da Cidade do México, em 1968.
Na década seguinte, o mundo todo assistiu ao sequestro de atletas
israelenses por palestinos em 1972, na Alemanha, durante a Olimpíada de
Munique.
"As Olimpíadas são um palco de disputas
esportivas, mas também acabam sendo usadas politicamente, para chamar a
atenção para uma causa, por exemplo, ou uma disputa política,
principalmente durante a Guerra Fria, quando os lados socialista e
capitalista lutavam para ver quem vencia no
quadro de medalhas
", exemplifica o professor de história Lucas Kodama, do curso pré-vestibular Anglo, de São Paulo.
Qual foi a primeira Olimpíada que deu lucro?
Após a crise mundial do petróleo, na década
de 1970, apenas Los Angeles entrou na disputa para sediar os Jogos
Olímpicos de 1984, e o resultado foi um modelo de sucesso, seguido em
todas as edições posteriores do evento. "O COI montou determinados
critérios em que os Jogos deveriam se transformar em uma marca comercial
que desse retorno financeiro para as cidades-sede e para o próprio
Comitê", afirma o professor de marketing esportivo Nicolas Caballero, do
Centro Universitário Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb).
Consequentemente, a Olimpíada de Los
Angeles foi a primeira a ser lucrativa, gerando uma receita de US$ 223
milhões. "Os Jogos de Montreal foram pagos 30 anos depois de sua
realização, e os de Los Angeles foram os primeiros que deram lucro.
Nesse momento, as Olimpíadas se transformaram numa grande marca",
destaca Caballero.
Quais países fizeram boicotes às Olimpíadas?
Nos últimos anos da Guerra Fria, entre
as décadas de 1970 e 1980, as edições dos Jogos Olímpicos foram marcadas
por boicotes de delegações de alguns países, por razões políticas. Na
Olimpíada de Montreal, em 1976, 22 países africanos não participaram do
evento, em protesto a uma viagem do time de rúgbi da Nova Zelândia à
África do Sul, que vivia então em um regime de apartheid. Na década
seguinte, os Jogos de Moscou (1980) e de Los Angeles (1984) foram
marcados por dois boicotes: na hoje capital da Rússia, em protesto à
invasão soviética ao Afeganistão, os americanos convocaram delegações do
mundo todo a não participarem daquela edição; como consequência, os
soviéticos se recusaram a participar da Olimpíada seguinte, em solo
americano.
Segundo o professor de história Lucas
Kodama, do curso pré-vestibular Anglo, de São Paulo, os dois últimos
boicotes, principalmente, refletem a adoção de uma política externa mais
agressiva por parte dos dois países. "Foi uma forma negativa de luta
conta o adversário no campo da geopolítica, porque houve uma negação do
espírito olímpico. De alguma forma existiu uma tentativa de
justificativa dos boicotes por um outro motivo, mas são casos em que as
Olimpíadas transcenderam o campo da disputa esportiva para o da política
também", ressalta.
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