Retirado de http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2015/08/hitler-usou-olimpiadas-para-fazer-uma-propaganda-do-nazismo-em-1936.html
Hitler usou as Olimpíadas para fazer propaganda do nazismo em 1936
A imagem do ditador alemão hoje é parte de uma história bem conhecida.
Hitler é sinônimo do mal no século XX. O horror dos campos de
concentração, o genocídio, 50 milhões de mortos, Segunda Guerra Mundial.
Até aí o mundo conhece.
Mas é necessário imaginar um outro Hitler, de antes da guerra, o líder
alemão de 1936. Desde 1933 no poder, ele era admirado e popular. E não
só na Alemanha. Os judeus já eram perseguidos pelos nazistas, mas o antissemitismo era um traço relativamente comum em muitos países cristãos.
E no sul, na Baviera, a parte católica da Alemanha, onde o nazismo era
forte, se escolheu duas cidadezinhas para sediar as Olimpíadas de
Inverno. As vizinhas Garmisch e Parterkichen ainda são bibelôs, tudo
bonitinho, arrumadinho e organizado.
Tudo funcionou perfeitamente apesar de 10 mil alemães em uniforme e
bandeiras com suásticas por todo lado. 28 países participaram. As
estátuas e um estádio para saltos ainda são os mesmos daquela época, no
inverno de 1936.
O sucesso das Olimpíadas foi tal que os alemães conseguiram algo
inédito: o direito de sediar os Jogos Olímpicos seguintes, de 1940, foi
dado novamente para Garmisch e Partenkirchen.
Mas não foi só na área esportiva que as Olimpíadas renderam. A
comunidade internacional apoiou tanto a Alemanha que Hitler se sentiu
forte o suficiente para ousar algo arriscado politicamente.
Três semanas depois do fim dos jogos, Hitler ordenou a reocupação
militar da Renânia, território alemão, algo que depois da Primeira
Guerra tinha sido proibido pelo Tratado de Versalhes. Foi feito sem
quase um pio de reclamação.
As Olimpíadas tinham dado a Hitler, ao sediar um evento de maneira
impecável, uma imagem boa, amistosa e confiável. Meses depois, em
agosto, era hora do mais importante, os Jogos de Verão, quando 49 países
participaram.
O primeiro dia foi um sucesso, Hitler, ovacionado como nunca, colhia os
louros de uma ideia que a principio os nazistas eram contra. Nas
Olimpíadas anteriores, em Los Angeles, em 1932, eles disseram que era um
evento onde se via pessoas competindo contra animais.
O racismo era evidente, mas o público alemão se entusiasmou com o
grande atleta das Olimpíadas de Berlim, o americano Jesse Owens, que
ganhou quatro medalhas de ouro. Uma delas inesperada porque no
revezamento 4x100 ele não estava escalado. Mas, para agradar Hitler, a
delegação americana tirou da equipe dois corredores judeus que foram
substituidos por Owens e outro corredor negro.
O mito de que Hitler não quis cumprimentar Jesse Owens é apenas isso,
um mito. Segundo o historiador alemão Arnd Kruger, PHD da Universidade
de Colônia, depois do primeiro dia de competições, Hitler foi orientado
pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) que deveria cumprimentar todos
os medalhistas. Como não poderia estar presente em todas as competições,
optou por não cumprimentar ninguém.
A Alemanha ficou em primeiro lugar geral, com 89 medalhas, longe, à
frente dos Estados Unidos. Hitler gostou tanto dos Jogos Olímpicos que
disse que, no futuro, todas as Olimpíadas seriam na Alemanha.
Ele chegou mesmo a planejar um estadio para 400 mil pessoas. Para ele
ficou muito claro que o maior espetáculo esportivo do mundo era o palco
perfeito para mostrar e difundir a mensagem nazista de superioridade
alemã.
Essa mensagem não vingou, mas outras sim. Os nazistas tinham o senso do
espetáculo grandioso, algo fundamental nas reuniões politicas deles. Os
nazistas foram os primeiros, mas daí foi um passo para disseminar a
ideia de que o esporte era um instrumento ideal para um país se exibir
para o mundo.
Arnd Kruger conta que as Olimpíadas de Berlim foram as últimas vistas
pelo Barão de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna,
que disse que tinham sido os melhores de todos os tempos.
Perguntado sobre esse lado de propaganda, Coubertin disse que Los
Angeles, em 1932, tinha usado os jogos para promover o turismo na
Califórnia e que, se o governo da Alemanha nazista tinha feito o mesmo
com intuito político, ele não se importava. Que o mais importante, para
ele, era que as Olimpíadas crescessem. Algo que não parou de acontecer,
assim como o uso e abuso do esporte na política.
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